Tuesday, May 23, 2017

A PRINCESA DOS VENTOS (LIVRO III)


Ilustração e capa por Murilo Araújo
Sinopse
Após a perda de muitos companheiros de viagem durante a travessia pelo mar, e uma brusca separação, o grupo de Cã desembarca nas Terras Gélidas em busca de Lílat.
Mas o que eles encontram naquela distante região é muito mais que um ambiente hostil povoado de raças traiçoeiras; e as descobertas que fazem, podem mudar o rumo da história de Zylgor para sempre.
Em meio a encontros e desencontros, perigos, inimigos implacáveis e lutas mortais, nossos heróis precisam não apenas encontrar a princesa das Terras Aquecidas, mas também impedir que o mal se perpetue e tome o mundo inteiro, pois o poderoso Adversário está cada vez mais próximo.


A inspiração

A principal fonte de ideias para compor a terceira aventura da série veio de estudos da vida do povo Viking, além de mitos, lendas e seres fantásticos de várias culturas.

Capítulo para degustação

O fiasco de Grimor

O dragão cinzento já tinha sido informado sobre a visitante, e aguardava por ela no grande salão de paredes altas e enegrecidas cortadas na rocha dura e fria. Quando a porta foi aberta, a elfa branca entrou com passos determinados e olhar astuto.
– O que veio fazer aqui, Ives?
– Vim para dar continuidade a minha missão.
Das narinas largas do monstro saía uma névoa escura. Após uma pausa, a elfa retomou a fala com a mesma entonação fria.
– A linhagem das matriarcas das Terras Aquecidas precisa ser extinta. Tal como aconteceu à primeira matriarca, a princesa Lílat deve ser sacrificada ao nosso mestre.
Os olhos do dragão faiscaram quando ele pronunciou algumas palavras. Sua fala foi breve, pontuada pelo chiado provocado pela longa língua bifurcada.
A elfa ouviu-o sem interromper. Correu os olhos por uma grossa corrente que tocava o chão e ia subindo até chegar ao teto onde um dos elos estava preso em uma argola. A outra ponta da corrente suspendia uma gaiola dourada. A gaiola estava vazia. Quando o monstro concluiu, ela perguntou com um tom autoritário:
– Lílat o que? Como? Quando?
O dragão ergueu o pescoço em uma tentativa de intimidação; porém, o movimento brusco não surtiu efeito sobre a elfa que não moveu qualquer músculo, nem sequer piscou.
– Como ela fugiu não importa mais. Isso já faz tempo. Mas muitos grupos têm tentado encontrar a princesa. Cedo ou tarde...
Dessa vez, o dragão foi interrompido pela voz arrogante e superior da elfa.
– Sua tarefa era muito simples. Precisava apenas continuar aqui, deitado preguiçosamente sobre sua pança, guardando a princesa das Terras Aquecidas até que seu destino fosse decidido.
– Cuidado como fala comigo! Sou Grimor, mestre de todos os dragões.
Ives sorriu com desdém.
– A mim pouco importa quem você é, e sim o que fez, ou melhor, o que não fez... Lílat solta nas Terras Gélidas. Ao mesmo tempo, Cã e Áspio, que possuem os outros dois cristais, acabaram de desembarcar com a missão de resgatar a princesa reinante... Esse é sem dúvida um contratempo ridículo.
– Não há nada com que se preocupar. Já disse que muitos estão atrás dela. É tudo uma questão de tempo. Mais cedo do que imagina, ela estará presa naquela gaiola – a garra maligna apontou para cima, mas a elfa não parecia muito convicta.
– Acha mesmo que depois desse fiasco, ficarei aguardando de braços cruzados? – virou-se e foi saindo.
– Aonde vai? – Grimor perguntou com grande irritação.
– Caçar Lílat, é claro – anunciou sem olhar para trás, dobrando para o corredor.
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Saturday, July 2, 2016

O PRÍNCIPE FLAMEJANTE (LIVRO II)


Ilustração e capa por Murilo Araújo
Sinopse
Cã descobre para onde Lílat foi levada. Agora, sua missão é salvar a princesa.
Tal como acontece na primeira parte da série, nosso herói precisa passar por regiões inóspitas, enfrentar inimigos implacáveis e grande perigos.
Dentre os membros do grupo que segue com Cã nessa nova aventura, está Áspio, príncipe dos silfos e portador do cristal fogo.
Belo, sagaz, sedutor e poderoso, Áspio tem como objetivo não apenas resgatar a princesa, mas casar com ela e assim ocupar o trono maior das Terras Aquecidas.

A inspiração
A Odisseia, de Homero, bem como histórias dos gladiadores que disputavam no Coliseu da Roma antiga e de piratas da idade moderna me deram o estímulo necessário para a construção da trama.
É claro, como no primeiro livro, repete-se aqui a simbologia de mitos, lendas e contos de fadas.

Capítulo para degustação

Avatares
O sol se erguia esplêndido sobre o oceano de águas violetas, o céu brilhava em um azul translúcido e as brisas frescas com o cheiro do oceano atenuavam o calor.
A maior parte da população da capital e os visitantes de outros territórios já ocupavam todos os assentos do grande estádio. Os minutos corriam, as apostas cresciam. Muitos consideravam que as qualidades combativas do príncipe sílfico aliadas aos seus dons mágicos seriam suficientes para derrubar o campeão da rainha. Outros achavam tal ideia a mais estapafúrdia, e defendiam que Cã achataria o silfo com um único golpe.
Tão logo a entrada dos competidores foi anunciada, os dois portões foram abertos. Uma histérica chuva de aplausos ecoou por toda a capital.
Cã e Áspio caminharam lado a lado até o centro do campo, e saudaram a rainha.
O camarote real estava lotado. Ali estavam Mu, Vu, Ormina e Surga, os príncipes participantes do torneio (com excessão de Spak), Ektoor e Rodrax, e as damas de companhia. De todas, Ives era a mais bela.
Ao lado da matriarca estavam dois homens. Ambos eram belos e altivos. Um era o rei Yanuk, pai de Áspio. O príncipe sílfico inflou o peito de orgulho, pois seu pai quase nunca ultrapassava os limites dos muros de Altanira, mas provando o quanto se orgulhava do caçula, tinha vindo especialmente para vê-lo e torcer por ele.
– Meu pai! O imortal que caminha na terra veio nos assistir! Uma grande honra para nós dois – sussurrou o príncipe.
Sem dúvida Cã se sentia honrado com a presença de Yanuk, mas sua atenção logo se concentrou no outro homem. Na certa deveria ser alguém da maior importância. De fato, irradiava uma nobreza superior tal qual o próprio Yanuk. Olhando o convidado ilustre com mais atenção, o duque perguntou ao silfo:
– Conhece aquele homem? Não sei quem é, mas foi com ele que conversei antes de entrar no templo de Causea, quando tive o sonho com Lílat.
Áspio também ficou surpreso.
– Não pode ser coincidência. Foi com ele que troquei palavras antes de invadir o templo de Armara e sonhar com o chamado da princesa.
Os rapazes tiveram de encerrar o assunto.
– DUELO COMO ESSE NUNCA FOI TRAVADO ANTES. JAMAIS UM PRÍNCIPE SÍLFICO PARTICIPOU DO TORNEIO DRACÔNICO, E NUNCA O VENCEDOR DO TORNEIO TEVE DE ENFRENTAR O CAMPEÃO DA RAINHA PARA ASSEGURAR SEU DIREITO AO TRONO… DUAS FORÇAS DA NATUREZA ENTRANDO EM CHOQUE. QUEM VENCERÁ: O INDOMÁVEL FOGO OU O INABALÁVEL ROCHEDO? FAÇAM SUAS APOSTAS!!
Mais uma calorosa aclamação; porém, quando os rapazes tomaram distância um do outro, o barulho foi substituído por um silêncio absoluto.
O duque observou o outro rapaz, lembrando-se das atrapalhações pelas quais vinha passando desde a vinda do príncipe. Era chegada a hora de dar o troco por todas as coisas arrancadas dele: a admiração do povo, a predileção da rainha, o posto de herói, suas armas, entre muitas outras. Afinal, o que fizera o silfo de tão espetacular?... Rechaçou as tropas de Daimos; invadiu a cidade na noite da insurreição; liderou um grande exército para marchar contra o imperador; foi ungido com o cristal fogo; salvou Cã quando ele caiu da torre mais alta do palácio depois da luta contra Daimos, e o ajudou a abrir o portal mágico para o retorno da matriarca. Ah, sem contar que superou todos os outros príncipes no torneio dracônico... Cã expirou aborrecido. Aquela era uma lista de proezas bem extensa.
Por outro lado, não foi ele, Cã, quem livrou Zylgor de Daimos, depois de atravessar as Terras Aquecidas enfrentando perigos sem fim e feras mortais? Por que então agora era desmerecido e deixado de lado enquanto aquele pavão verde ostentava suas penas lustrosas? E não era por causa de Áspio que Lílat era submetida, sem nem mesmo estar presente, ao constrangimento de ser um troféu para o vencedor de um jogo idiota? Não apenas ela, mas também Ives! Aqueles pensamentos fizeram o coração de Cã ficar duro como pedra.
O silfo alimentava uma grande expectativa de suplantar Cã. Afinal, por que um forasteiro seria o maior herói, e não ele, um legítimo zylgoriano e descendente de importante estirpe? Por que era de Cã o título de campeão da rainha, quando ele, o príncipe dos silfos, tinha em si todas as qualidades para merecer tal honraria? E por que deveria disputar com Cã o direito de casar com a princesa se tinha acabado de vencer os demais pretendentes? Se não fosse aquele estrangeiro, Áspio já teria assegurado sua posição de rei, bem como já teria conquistado Ives. E por tudo aquilo Áspio sentiu seu espírito ainda mais incendiado para a luta.
Os rapazes não portavam armas; porém, para delírio do público, ambos geraram monstros com os cristais elementais.
Cã forjou uma grande besta semelhante a um réptil, mas que se erguia tal qual um homem, portando escudo e uma maça de longa haste cuja extremidade era uma bola revestida por espinhos.
Áspio moldou uma salamandra de fogo tão grande quanto o monstro de Cã. A salamandra tinha um escudo e um mangual - um tipo de clava cujo cabo é conectado por uma corrente à sua extremidade que também é uma esfera recoberta por espinhos.
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Monday, March 10, 2014

A PRINCESA DAS ÁGUAS (LIVRO I)




Ilustração e capa por Murilo Araújo
Sinopse
Cã é um garoto órfão de 15 anos cuja vida vira de cabeça para baixo quando um espírito de chuva o conduz a um portal mágico pelo qual ele atravessa para um exótico mundo  chamado Zylgor.
Sua aventura em Zylgor começa quando ele se vê perdido em um bosque azul. Cã tem apenas duas opções: continuar perdido ou seguir três estranhas criaturinhas. Mas seja qual for a escolha, a sua frente se estenderão situações inusitadas e perigos letais, pois logo descobre que terá que participar de uma arriscada jornada se quiser retornar para seu próprio planeta.
Ambientada em um mundo muito diferente do nosso, a história aborda o mito do herói, apresentando Cã, o protagonista, como uma projeção da condição humana no que diz respeito a sua complexidade psicológica, social e ética. Ao mesmo tempo, esse personagem transcende a condição do homem comum, pois representa virtudes que todos nós desejamos alcançar.

A inspiração
A inspiração para escrever Zylgor surgiu quando assisti ao filme "A História Sem Fim", baseado no romance do autor Michael Ende. Os elementos sobrenaturais, o mundo paralelo e os seres mágicos me fascinaram. Imediatamente, comecei a redigir a história de um garoto que é retirado da sua vida comum para participar de uma fantástica jornada em um planeta distante.
Desisti e rasguei meu manuscrito por achar que a história era boba demais, e passei a me concentrar em escrever para teatro. No entanto, não muito depois, buscando na biblioteca algo para ler, me deparei com um título esquisito que me chamou atenção: "O Hobbit". Li na contra capa sobre o autor, um tal de J.R.R. Tolkien, escritor premiado, filósofo e professor universitário. Resolvi ler por pura curiosidade e tão logo dobrei a última página da obra, me dei conta da grande tolice que tinha feito ao destruir meu mundo secundário. Isso tudo aconteceu antes do "bum" dos filmes dirigidos por Peter Jackson.
Recomecei a escrever, dessa vez não apenas tendo como base a minha própria imaginação, mas também buscando conhecimento em mitos e lendas das diversas culturas ancestrais, bem como nas fábulas de La Fontaine, nos contos dos Irmãos Grimm, de Charles Perrault, entre outros.


Capítulo para degustação

Demônio das águas
Os gnomos tinham colocado uma segunda caminha no quarto onde Cã dormia. Juntando as duas ao comprido, ele agora podia esticar as pernas. Deitou-se e se espreguiçou; porém, apesar do cansaço mental, não conseguiu pregar os olhos. Talvez não estivesse habituado com o fuso horário daquele mundo, porque já tinha percebido que os dias e as noites eram mais longos se comparados aos da Terra.
Quis virar-se de um lado para o outro, mas a cama era estreita. Impaciente, ele decidiu ir para o chão. Ali forrou um cobertor, deitou e fechou os olhos. Dez minutos se passaram e nada de o sono chegar. Com mais quinze minutos, assobiava baixinho, os olhos muito abertos; e com outros trinta minutos, batucava os dedos sobre o tórax, os olhos fixos no teto. Foi quando se insinuou em seu quarto um aroma delicioso que ele tinha certeza ter entrado pela varanda. Em seguida, ouviu um canto suave e irresistível misturado ao zunzunar da brisa. Ergueu-se e foi até a varanda para averiguar.
As folhas da grande árvore eram mexidas de leve pelo vento cálido e a luz das duas luas se esgueirava por entre os galhos mais altos. A superfície da água cintilava como um céu estrelado e infinito.
O garoto notou uma movimentação diferente lá embaixo. Aguçou a vista e distinguiu Lílat deslizando pela água, rodeada de criaturinhas luminosas que tinham aparência feminina e delicada e cabeleiras fartas e cristalinas como fios de água. O lago parecia estar todo perfumado e o aroma adocicado subia como uma tênue bruma.
Um vago pensamento de recuar e voltar para seu quarto passou pela cabeça do rapazinho, mas a vontade era fraca e o corpo não se moveu um centímetro sequer. Na verdade, existia dentro dele, naquele momento, um embate entre a razão e a embriaguez dos sentidos.
Lá embaixo, as pequenas ninfas levitavam sobre as águas e cantavam com vozinhas melodiosas.

Elemento precioso da vida
Transborda sentimentos da alma
Pleno de criação fecunda
Purifica e acalma
Purifica e acalma

Emoção, graça, simetria
Virtudes elementais
Intuição nobre e correta
Presentes espirituais
Presentes espirituais

Depois, a própria Lílat começou a entoar uma canção. A menina cantava e deslizava com suavidade e seus cabelos desaguavam no lago como uma cachoeira refletindo o brilho das estrelas. Cantava com voz profunda e cristalina. Embora a canção tivesse um final meio triste, ficava muito bonita na voz da princesa.
Meio que hipnotizado, Cã, devagar, se debruçou sobre o murinho do terraço para observar melhor.

Doce é o canto à luz do luar
Doce é voz das ninfas do lar
Suave é o lago e o seu encanto
Logo será apenas um sonho
Logo será apenas um sonho

Quando Lílat acabou de cantar, uma das pequenas ninfas disse:
— Logo a nossa princesa estará se separando de nós. Queremos que leve uma lembrança — e pedindo que Lílat erguesse o pezinho para fora da água, as ninfas começaram a imprimir na sua pele uma tatuagem mágica. Quando terminaram o lindo desenho no pé da menina, ela ergueu a vista para agradecer. Seus olhos aveludados adquiram uma expressão dura.
Cã achou ter sido visto. Aquilo o despertou do estado meio letárgico, e a razão tornou a comandar seu corpo e sua mente. Assustado com a possibilidade de ela se sentir ofendida, ele deu um passo atrás, ocultando-se nas sombras, e já tinha decidido voltar para o quarto quando ouviu a princesa entoar uma nova canção em um ritmo mais rápido e com um tom enérgico. Ele permaneceu ali mesmo e apurou os ouvidos. O que escutou foi o seguinte:

Frágil vontade da raça mundana
Não deve, não pode ser soberana
Frágil vontade, débil reinado
O que esperar de um macaco?
O que esperar de um macaco?

E todas riram com gosto. Cã não estava tão animado quanto elas. Muito pelo contrário, não tinha apreciado em nada aquela canção, em especial a última parte que falava sobre macaco e ficou vermelho da cabeça aos pés.
— Música engraçada, Alteza! — uma das ninfas comentou.
— Digamos que acabo de ter uma visão inspiradora — a princesa respondeu, fazendo questão de elevar a voz.
Cã sentiu-se ofendido e decidiu acabar com a brincadeira. Voltou à amurada e disse em voz alta:
— Parece que não sou o único com insônia. Vou dar um mergulho também.
As pequeninas emitiram gritinhos de susto e sumiram para baixo do espelho de água quando Cã pulou da varanda e mergulhou no lago. A água estava morna e acolhedora. Ele veio à tona sorrindo desafiadoramente, mas não demoraria muito para descobrir que Lílat não era alguém que aceitava desafios.
Por um momento fugaz pareceu florescer um sorriso nos lábios da princesa. Ela aproximou-se do rapazinho devagar e aquilo o deixou nervoso, com os sentidos meio entorpecidos. Ainda mais confuso ficou quando ela, com um olhar misterioso, mergulhou.
— Que é agora? Quer brincar de esconder?
De súbito, as pernas do garoto foram agarradas. Ele foi puxado para baixo por um segundo e voltou à tona tossindo e olhando para os lados, tentando encontrar Lílat. Havia algo no lago e ele estava temeroso se aquilo que o tinha atacado talvez tivesse levado a menina. Naquele instante, sentiu algo enroscar em seu pé e mais uma vez foi tragado.
Tentáculos ondulavam por todos os lados. Não... Não eram tentáculos e sim as mechas violeta dos cabelos de Lílat que pareciam ter vida própria, puxando o garoto para as profundezas. De início ele não entendeu, mas quando começou a sentir a água penetrando em seus pulmões, percebeu que Lílat o estava afogando. Por mais que ele tentasse se soltar, seus esforços de nada adiantavam. Seus pulmões ardiam e seu corpo foi amolecendo. Por fim, conseguiu discernir apenas um punhado de ninfas tremeluzindo a sua volta.
Cã estava na faixa de terra ao pé da árvore. Cuspiu muita água, tossiu sem parar e ficou de joelhos, ainda sem forças para se aprumar. Percebeu que os gnomos estavam ao seu lado. Aturdido, distinguiu a voz de Mu ralhando com ele.
— Que ousadia! Ficar bisbilhotando a princesa tomar banho e interromper seu encontro com as ninfas do lago!
O menino levantou-se com dificuldade, a expressão enraivecida e indignada.
— Eu não estava bisbilhotando. Fui atraído pelo canto dela. Ora, pensando bem, acho que fez de propósito para me atrair. Depois tentou me humilhar e, como se não bastasse, ainda quis me matar.
— Chega de tolices por essa noite! Vamos para dentro! — Vu resmungou entre bocejos de enfado. Prestando atenção naquilo, Cã achou que ele estava mesmo era querendo disfarçar uma gargalhada e confirmou sua impressão ao lançar a vista nos outros dois gnomos. Zu abafava o riso, escondendo a boca com as mãozinhas peludas, e Mu controlava-se para não fazer como o irmão mais novo, embora balançasse a cabeça ainda com um gesto de reprovação pelo comportamento de Cã que entrou cabisbaixo e com os ombros arriados, resmungando:
— Demônio das águas. Isso é o que ela é.
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Ilustração por Murilo Araújo